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A Natureza Humana: a cultura como metáfora da natureza


Artigo de autoria de Geraldo Costa Filho – Sociólogo e professor universitário (doutorando da UFC)

Tomar o conceito de cultura como uma metáfora da natureza em geral, dentro da qual a espécie homo sapiens está incluída, é compreendê-la como o prolongamento dos instintos e das estruturas mentais que evoluíram progressivamente e nos concederam a condição de humanidade.

Apesar da renitente teimosia das ciências sociais e das demais que compõem as ciências humanas em permanecer com a concepção de cultura como “tábula rasa”, isto é, a de que um indivíduo é o resultado somente de suas experiências culturais (portanto, sem manifestar predisposições comportamentais genéticas), condicionadas pelas instituições sociais (família, política, economia, religião, língua...); ciências como a sociobiologia, junto com a biologia evolutiva e a neurociência, nas últimas décadas vêm construindo conjunto substancial de provas que negam categoricamente o conceito tão caro aos cientistas sociais.

Para ser mais preciso, já existe um movimento de renovação no mundo acadêmico que objetiva amenizar nas ciências sociais os excessos do “culturalismo” e da sua manifestação teórica mais vistosa, o “relativismo cultural”, e fazê-la retomar o caminho de uma cientificidade mais rigorosa. Infelizmente, como sempre, o Brasil fica refém do atraso, geralmente promovido por grupos ideológicos que dominam os departamentos das universidades ou, quando não, por professores românticos que perderam o elan para a novidade científica ou ficaram paralisados pela vaidade do seu narcisismo.

O caminho da renovação consiste na aproximação das ciências sociais com a sociobiologia, à biologia evolutiva e à neurociência, através de um diálogo que busca as interseções entre estas disciplinas, que devem se exprimir por meio de conceitos comuns ou pela descrição de processos semelhantes nos respectivos domínios.

Na história das ciências sociais houve precursores que identificaram as possibilidades de aproximação entre as ciências. Nas primeiras décadas do séc. XX, Bronislaw Malinowski e Radcliffe-Browm perceberam que as culturas que definiam a identidade de cada sociedade eram estruturadas por instituições sociais (coletivas), cuja solidez e longevidade eram sustentadas pela funcionalidade (eficiência e eficácia) das respostas fornecidas para as necessidades humanas.

No entanto, estas primeiras tentativas foram sufocadas pelos que acreditavam que a cultura é o antônimo da natureza, o seu oposto, e não a sua continuidade. A razão dessa supremacia provavelmente decorre de questões existenciais profundas, que emergiram no instante em que na filogênese da espécie sapiens um indivíduo tomou consciência de sua própria existência como um ser singular, desenvolvendo um mundo interior representado pela mente, capaz de guardar uma memória de longo prazo do passado (sua autobiografia) e de projetar sua vida para o futuro.

Esse momento de passagem conhecido como humanização desencadeou questões como o sentido da existência, de onde venho, o que faço aqui e para onde eu vou. Há mais ou menos 200 mil anos, data aproximada do aparecimento da espécie sapiens, no caso nós, procuramos respostas definitivas para estas questões fundamentais, pois entrelaçadas, formam o núcleo da existência dos indivíduos em cada sociedade que historicamente existiu. A consistência das respostas, sua funcionalidade, será aferida pela coesão dos indivíduos no grupo ao qual pertence (família, tribo, cidade, nação...), na sua capacidade de permitir suportar o cotidiano repetitivo da vida, sobre a qual adquiriram a consciência de que não têm domínio, pois são impotentes diante da passagem do tempo biológico (envelhecimento e morte), cujo fluxo é paralelo ao tempo histórico.

O núcleo existencial representado por estas questões fundamentais e suas respostas formam uma estrutura. A variabilidade de respostas para as mesmas questões formaram ao longo da história as diversas culturas humanas; cujas raízes se encontram nas dissensões (disputas) no âmbito dos grupos ou na emigração (nomadismo) de famílias que colonizaram ecossistemas terrestres diferentes e, que, por consequência, sob pressão da seleção adaptativa nos novos habitats, culturalmente se diferenciaram. Assim se explica a multiplicidade de mitologias e religiões, com respectivos deuses e sacerdotes, que povoam a história da humanidade.

Porém, o enfrentamento e o reconhecimento intelectual, por parte do cientista social, destas questões como estruturas-funcionais que dão sentido para a existência pode ser (e normalmente é) uma experiência perturbadora, porque o leva a olhar na beira do precipício da finitude, que é a morte. Afinal, a consequência imediata é compreender que mitologias e religiões, que dizem como devemos ser e viver, além de fornecerem a esperança do reencontro com entes amados que já se foram, não seriam mais do que estratégias instintivas e adaptativas de sobrevivência (respostas funcionais), que evoluíram e se sofisticaram como cultura para permitir a permanência do sapiens como espécie e a para a conquista do planeta.

Isto, para muitos colegas, é emocionalmente desconcertante, o que os leva ao refúgio no “culturalismo” da “tábula rasa”, que nega a crueza do homem como uma simples espécie da natureza dentre as demais, pois não cogitam aceitar que a complexidade urdida pelas mitologias e religiões, assim como as congêneres filosofias laicas, podem se constituir apenas em muletas existenciais (estruturas-funcionais) que ajudam a viver. É como se o processo de humanização, caracterizado pela aquisição da cultura, significasse, tal qual um passe de mágica da varinha de Harry Potter, eliminar de dentro do humano sua condição biológica.

Mas a cultura como uma continuação “da” natureza, não sua ruptura “com” a natureza, Isto é, a cultura como uma transmutação (metamorfose) dos instintos em instituições sociais, portanto um instinto natural que evoluiu de maneira complexa e sofisticada, o que estou chamando de “metáfora da natureza”, não se restringe apenas às questões existenciais fundamentais. Tal qual a variedade de instintos que evoluíram para nos permitir sobreviver, as estruturas-funcionais que alicerçam a cultura, que são a ressonância cultural dos instintos, também se diversificaram de acordo com os ambientes ecossistêmicos colonizados pelos humanos, é por isso que temos instituições sociais aparentemente tão diferentes umas das outras, mas, que, no entanto, compartilham um substrato funcional comum.

A estrutura-funcional econômica é um bom exemplo ilustrativo dessa diversidade de respostas culturais. Ela se embasa em quatro questões operacionais: o que produzir, como produzir, em que quantidade e para quem. Ao se procurar pelas sociedades, das mais simples às complexas, sob o ponto de vista da organização econômica se constatará a presença da estrutura economia.

Costumo dizer que tal qual uma tribo indígena isolada, que para responder às quatro questões básicas para a sobrevivência do seu povo caça e coleta (economia da “mão-para-a-boca”), ou faz uma rudimentar agricultura de subsistência; um habitante de uma sociedade industrial responde às mesmas questões com um cartão de crédito ou débito na mão, ou com um “enter” em um teclado de computador que movimenta cifras astronômicas de aplicações financeiras para alocação de investimentos no mercado.

Observem que ao se procurar em ambas as situações se encontrará a relação necessidades de sobrevivência X satisfação de necessidades (respostas culturalmente diferenciadas), ou seja, desvelar-se-á a estrutura-funcional econômica. Essas estruturas como mitologias/religião e economia, aqui tomadas como ilustração, não variam de sociedade para sociedade. O que se diversifica culturalmente são as respostas funcionais encontradas para as demandas que elas apresentam.

É esta relação entre estrutura-funcional e respostas culturais variadas que determinou a multiplicidade de sociedades que surgiram na curta saga evolutiva de nossa espécie; e é isto que se concebe como natureza humana, que pode ser descrita pelo conceito de coevolução gene-cultura.

Fazer pouco caso do parentesco humano com nossos primos chimpanzés e bonobos, que não são iguais a nós em decorrência de uma insignificante diferença genética (mais ou menos 0,5%), dizendo que não são capazes de compor uma música ou cantar é desconhecer que como nós, eles se divertem a seu modo, desenvolvendo atividades lúdicas e carinhosas “grooming”, da mesma maneira que nós folgamos cantando e dançando.

Deus deve bolar de rir da pretensão dos humanos de serem mais do que Ele criou! Tu és terra (húmus) e à terra voltarás!

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